MEMÓRIA DE GODOFREDO FILHO:

CATÁLOGO INFORMATIZADO DE SEU ESPÓLIO

 

Zeny Duarte - ICI/UFBA

 

Considerações Iniciais

 

Iniciaremos esta exposição com um trecho do livro de José Saramago "Todos do nomes", considerado, em 1997, como o mais lido e divulgado em Portugal. Seu autor ganhou o Nobel de Literatura concedido pela primeira vez a um beletrista de língua portuguesa. Vejamos a transcrição do dito trecho:

 

A decisão do Sr. José apareceu dois dias depois. Em geral não se diz que uma decisão nos aparece, as pessoas são tão zelosas de sua identidade, por vaga que seja, e da sua autoridade, por pouca que tenham, que preferem dar-nos a entender que refletiram antes de dar o último passo, que ponderaram os prós e os contras, que avaliaram as possibilidades e as alternativas, e que, ao cabo de um intenso trabalho mental, tomaram finalmente a decisão." (...)"Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que as tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós. (SARAMAGO, 1997, p.41).

 

José Saramago nasceu exatamente no ano em que as correntes estéticas do modernismo se iniciaram em São Paulo com a Semana de Arte Moderna, em 1922. Esse evento artístico repercutiu na obra literária de Godofredo Filho, então jovem estudante de 18 anos.

Tomando como exemplo as decisões sobre a trilha da investigação do Sr. José de "Todos os nomes", passamos a entender o nosso próprio processo de pesquisa. Três palavras-chave rondaram a elaboração deste trabalho: tese, antítese e síntese.

Ocupamo-nos exatamente dessa tríade. A primeira – tese – a proposta, traz com ela as proposições quanto ao que pretendíamos realizar com o espólio de Godofredo Filho. Representa a leitura renovada, a análise documentária contextualizada, a adoção da metodologia para a catalogação dos documentos e a decisão pelo sistema/arquivo informatizado. A segunda – antítese – o contraste, foi onde nos deparamos com incertezas e conturbações, surgindo idéias contrárias aos pressupostos, às técnicas adotadas e ao próprio método. Então, tivemos que refazer o traçado, o enfoque do que propúnhamos. Experimentamos então técnicas e refutamos teorias. As dificuldades geraram a procura de combinações teóricas até chegar à tese, propriamente dita. Nesse instante, irrompeu a terceira - a síntese, a mistura, a composição, reunindo os elementos analisados e harmonizando os dados da pesquisa.

 

Godofredo Filho: retalhos de sua concepção de mundo por meio de seu acervo documental

 

O espólio de Godofredo Filho se apresenta num contexto distanciado e aproximado. Foi contextualizado sob o ponto de vista arquivístico, cronológico e "biobibliográfico" do titular.

Elaboramos um quadro sinóptico de 1904 a 1992 com breves passagens do biociclo história biográfica do titular. Partimos do que se pode chamar de história biográfica, com destaque para os aspectos da vida privada/pública de Godofredo Filho, a partir de leituras de seus documentos. Situamos as áreas de atuação e de interesse do escritor-poeta.

Organizamos o quadro geral de classificação com estrutura interna. Demonstramos a constituição das etapas de montagem do instrumento de pesquisa, a trama do arranjo do espólio, sua complexidade e as saídas encontradas para a deliberação do sistema com tópicos fundamentais para a concretização do estudo.

O espólio analisado transcendeu a condição de simples objeto deste trabalho. Foi compreendido muito além desse fato: ele foi o sistema.

Com o catálogo, respondemos a indagações do tipo: o que o titular considerava documentos representativos de suas lembranças e de outros? Como se constituiu a trilogia do arquivo: espécie/tipologia/suporte documental com ressonância na ordem original dos documentos? Quem fez parte de sua temporalidade? Quais as passagens históricas em cada fase de sua descoberta interior? Quem foi Godofredo Filho do ponto de vista de sua interação com o exterior e da própria invenção de si mesmo?

A etapa de descrição foi realizada com base científica. Evitamos o perigo do estudo conjetural, algo que está sempre próximo do ato de interpretar o documento. Conhecer o espólio a partir do procedimento metodológico adotado possibilitou-nos realizar o catálogo com informações sobre o homem/titular e sua temporalidade.

Na maneira como conduziu a organização dos seus documentos, podemos perceber alguns de seus parâmetros de vida e de seus contemporâneos/pares. Estes compartilhavam com ele desejos e a descoberta do mundo. Intercambiavam informações num convívio seletivo e com gosto apurado, pronto para provar os sabores e dissabores da vida.

Estava sempre disposto a argüir os documentos que produzia como quem argüia o que circundava a vida. Os documentos tornaram-se seus aliados e cúmplices de seus atos e realizações. Sempre que possível, mantinha-os reunidos e organizados sem interferência de terceiros. Nesse particular, partilhava o ato de ordenar suas lembranças apenas com o próprio mundo das letras e de seu arquivo.

 

O trabalho e as especificações técnicas do espólio

 

O objetivo principal deste trabalho é o estudo do espólio de Godofredo Rebello de Figueiredo Filho, arquivo por ele acumulado entre os anos de 1904 e 1992 e passado postumamente à UFBA.

As correspondências com contemporâneos ou predecessores imediatos, amigos e familiares também fazem parte do seu espólio. Essa documentação destaca-se como a que obteve do titular maiores cuidados quanto à organização.

Encontramos cartas recebidas com minuta de respostas por ele dadas. Temos exemplo de um dossiê contendo a comprovação da relação causa e efeito, a partir do conteúdo analisado.

Esse tipo de arquivo é, na maioria das vezes, em gênero e número, documentário epistolográfico único. Com o de Godofredo Filho não poderia ser diferente. A troca de missivas faz parte de um contexto histórico e representa a marca de uma geração singular com comportamentos epocais, conforme termo lusitano. Godofredo Filho foi contemporâneo de escritores/intelectuais como Eça de Queirós, Fernando Pessoa, José Régio, Vitorino Nemésio, Alfonso Reyes, Mário de Andrade, Graça Aranha, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, com eles comungando, ainda que a distância, de posturas ideológicas e comportamentais. A relação desses homens com os seus manuscritos denota semelhanças de parâmetros de vida e conhecimento de mundo. Numa carta endereçada a Aloysio de Carvalho Filho, ele próprio disse:

 

Confesso que nem sempre estive à altura do que me vinha pelos olhos: Kant, p. ex.. Mas eu o li então, como li Descartes, Spinosa (a Ethica no original latino), Pascal; como li Platão (e o devo a Gastão Guimarães, que Deus tenha na Glória), Rimbaud (cuja obra Edgard Matta me emprestou em 1923), o Shakespeare inteiro, Balzac, Dostoievsky, Camilo e Eça... Sim, Eça! Fui de uma geração que sofreu do "mal de Eça" e aprendeu a corrigir debicando, dando de ombros, sorrindo. Eça curava das truculências de Camilo. Mas não me condicionou à sua visão pessimista e superficial do mundo, ao seu amoralismo de deraciné, aquele cinismo epicúrio e livresco, que me faria mais tarde detestar a obra de Anatole France.

 

As missivas indicam o modo como os escritores tratavam as letras e as relações com os seus contemporâneos, pertencessem eles ou não à mesma geração ou ao mesmo circuito (socio-político-histórico-literário). As cartas trocadas entre ele e outros escritores, ou entre ele e quantos foram seus interlocutores, escritores ou não, trazem à tona temas históricos, políticos, filosóficos, literários, entre outros.

Já na década de 20, Godofredo Filho era possuidor de um acervo cumulativo de missivas trocadas com homens que alcançariam, ao longo das décadas de 20, 30 e 40, importância magistral para a Bahia, Brasil e para o exterior.                       

Manteve contatos com representantes do movimento modernista. Desse momento de sua vida, na mencionada carta a Aloysio de Carvalho Filho, disse:

 

Adesão total do modernismo, movimento literário e artístico de que participei desde 1923 como dos mais ardorosos e combativos vanguardistas, propagando-o, de primeira mão, na Bahia, ainda cidadela de numerosos gramáticos e retóricos à moda lusitana. Sucessivas viagens ao sul do país. Amizade de Manuel Bandeira (de quem fui hóspede em Sta Teresa, na casa do Curvêlo) e de Mário de Andrade (A F. Schmidt que me conheceu pajeado no Rio por Mário de Andrade). Amizade de Graça Aranha, de Ronald de Carvalho, cuja casa da rua Humaitá frequentei nos seus melhores tempos e de Alfonso Reyes, o insigne humanista de quem conservo correspondência epistolar desvaneadora.

 

Godofredo Filho preservava o regionalismo. Amava a sua terra e suas origens. Transformou Feira de Santana num cenário leve como as suas palavras.

 

Dimensão histórica da visita do Imperador à Feira de Sant'Ana

 

Ah, Feira de Sant'Ana para sempre acabada! Mas não deveremos começar por invocá-la - Ah, Feira para sempre acabada! - antes de evocá-la com rigor histórico ressaltado à claridade de um estilo de letras responsável pelo sopro da vida com que se há de animá-la. (GODOFREDO FILHO,1976,p.8)

 

Nos primeiros trinta anos do século XX, ainda se podia ter uma leitura quase uniforme das produções literárias de Godofredo Filho e correspondências trocadas. Parte de sua vida guardada nos seus documentos retomava certa corrente internacional da ânsia de escrever, espécie de folie exaltada em busca da constituição do universo documental abrangido pelo arquivo.

A história biográfica de Godofredo Filho traz nomes, expressões, movimentos, eventos, escolas, instituições, entre outros dados, que influenciaram na sua vida. Elaboramos uma lista com alguns nomes de personagens que fazem parte de seu arquivo, distribuída nesta oportunidade.

 

Transferência do acervo para a UFBA

 

A senhora Carmozinda Figueiredo, que tantas vezes viu o professor se debruçar nos papéis e livros para manter a ordem de seu arquivo e sua escrita em dia, viveu também o apego que ele tinha a seus documentos. O momento da transferência deles passou para ela uma espécie de segunda despedida. Que nos disse: "Godô estava em cada peça de seu arquivo, em cada livro e objeto por ele guardado."

Encontram-se no seu arquivo os seus mais importantes pertences, dotes, representando bens que falam dele e nos quais ele também deixou sua palavra e a de outrem, sua herança maior.

Godofredo Filho deixou no seu acervo documental tanto o seu pensamento, quanto o seu sentimento. Ambos se misturam na sua expressão poética, evidente não apenas nos seus escritos.

 

A interdisciplinaridade e a singularidade histórica do espólio

 

Este estudo não poderia ser realizado sem o viés da interdisciplinaridade. A pesquisa se enquadra nos “estudos culturais”, por entendermos tratar-se do espólio de homem múltiplo com a possibilidade de se verificarem nas indicações contidas em cada item documental, histórias e temáticas singulares.

A organização de documentos de arquivos não pode dispensar a articulação da arquivística com outras disciplinas. Essa tarefa passa pela utilização de métodos que possibilitem a sua interpretação, num contexto determinado pelas comunicações simbólicas. A arquivística é um campo do conhecimento beneficiado pela interdisciplinaridade (entendida como a possibilidade da relação de uma disciplina com outras, sem perder de vista seus pontos divergentes, ou a força que atua em prol da sua própria transformação).

Entendemos essa disciplina a partir das implicações contingenciais da história, na medida em que esta mostra a apreensão das criações e recriações do homem. A arquivística se encontra nesse contexto. Não há limites na leitura e na interpretação do documento, assim como não há nas configurações emanadas do subconsciente, essa parcela de resistência que povoa o obscuro eixo cognitivo, por vezes transfigurando, o pensamento. Este jamais alcançado de maneira linear e plena. A espacialidade e a temporalidade nos enunciados do documento são circulares na história do homem. Relacionam-se, ao mesmo tempo, com o passado e presente e são lidas de maneira invariável. Essa invariabilidade pode ser explicada por disciplinas como a biblioteconomia, psicanálise, semiótica, história, diplomática, crítica-textual, crítica genética, entre outras.

A arquivística é um campo do conhecimento em que colaboram entre si, principalmente, as ciências da informação, as sociais e humanas. Nesse contexto, convivemos também com a presença de outras disciplinas como auxiliares do procedimento metodológico da organização do arquivo.

Diante do exposto, organizar documentos de arquivo, precisamente arquivo privado, pressupõe um olhar do arquivista absorvido por um ato mais que tecnicista. O profissional da informação, intervém diretamente no documento, contata com seu passado, ao mesmo tempo em que identifica sua função simbólica. Seu saber teórico é multiplicado com o privilégio de um conhecimento íntimo e por vezes sensitivo do documento que analisa e sua cumplicidade com o homem/colecionador.

Entre um documento de época e certas leituras posteriores, um outro olhar, uma outra interpretação podem se interpor. Nossa reflexão apontou, desde o início, para a dificuldade de se reconhecer o cotidiano dos problemas vivenciados pela arquivística e a necessidade de encontrar revisão nos estudos culturais. Para compreender a arquivística contemporânea em seu novo comportamento: o de aprender com a atual inquietação, tal como acontece com outras disciplinas. Posiciona-se contrária ao estruturalismo e à historicidade que pregam a verdade absoluta e universal. Com a certeza de que devemos repensar, caso por caso, os conceitos e princípios técnicos da disciplina diante de sua emancipação, rebuscamos, em cada etapa deste trabalho, a revisão de literatura até compreender o nosso real papel no trato dessa massa documental.

 

Breves considerações finais:

 

Para o instrumento de pesquisa do espólio, antevemos um sistema com possibilidade de pesquisas por meio de consultas prévias. Acessando o catálogo informatizado, podemos ler a informação com interface múltipla e simplificada. Ele possui recursos próprios que proporcionam acesso ao dado a partir de comandos específicos.

Dependendo das consultas ao catálogo informatizado, o usuário encontrará variantes de sua busca, impossíveis de serem vistas num método manual de recuperação da informação. Não seria possível apresentar o catálogo como ele foi organizado e nem as conjugações da recuperação da informação que ele facilita, se não utilizássemos aplicativos informatizados.

 

Referências Bibliográficas:

 

GODOFREDO FILHO. Dimensão histórica da visita do Imperador à Feira de Sant'Ana. 1976.

SARAMAGO, José. Todos os nomes. Lisboa: Caminho, 1997.

 

OBS.: Outras citações do texto foram extraídas de documentos do espólio de Godofredo Filho.